{"id":2998,"date":"2024-12-23T10:04:00","date_gmt":"2024-12-23T13:04:00","guid":{"rendered":"https:\/\/interessatb.com.br\/?p=2998"},"modified":"2025-01-12T11:15:00","modified_gmt":"2025-01-12T14:15:00","slug":"as-circunstancias-da-vida-e-um-tributo-a-educacao","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/interessatb.com.br\/?p=2998","title":{"rendered":"As circunst\u00e2ncias da vida e um tributo \u00e0 educa\u00e7\u00e3o"},"content":{"rendered":"\n<p><br>(Discurso de posse no Centro de Letras do Paran\u00e1)<\/p>\n\n\n<div class=\"wp-block-image is-style-rounded\">\n<figure class=\"alignleft size-thumbnail\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" width=\"150\" height=\"150\" src=\"https:\/\/interessatb.com.br\/wp-content\/uploads\/2024\/02\/image-150x150.png\" alt=\"Jacir Venturi\" class=\"wp-image-2732\"\/><\/figure>\n<\/div>\n\n\n<p>Jacir J. Venturi*<\/p>\n\n\n\n<p>Sauda\u00e7\u00f5es!<br>Sejamos n\u00f3s professoras e professores, escritoras e escritores, m\u00e3es e pais, sempre h\u00e1 de prevalecer que somos educadores e, como educadores, n\u00e3o temos o direito de ser medianos.<br>Educar \u00e9 a miss\u00e3o mais nobre que nos foi concedida pelo Criador, o que exige de n\u00f3s sermos inteiros e n\u00e3o medianos na manifesta\u00e7\u00e3o de afeto, resili\u00eancia e entusiasmo. A prop\u00f3sito, pela sua etimologia, as duas mais belas palavras do nosso l\u00e9xico s\u00e3o \u201ceducar\u201d e \u201centusiasmo\u201d. \u201cEducar\u201d prov\u00e9m do latim ducere, que significa \u201cconduzir, mostrar o caminho\u201d. \u201cEntusiasmo\u201d tem origem no grego en-theo, que literalmente se traduz como ter \u201cdeus dentro de si\u201d (en = dentro e theo = deus). Para os gregos polite\u00edstas, quem carrega a chama esplendorosa do entusiasmo tem um deus dentro de si. Portanto, sejamos educadores entusiastas.<br>Com 11 anos de idade, parti da pequena e buc\u00f3lica cidade de Agron\u00f4mica (SC) para estudar em Lages (SC), num col\u00e9gio interno de padres. Muito latim, grego, humanidades, m\u00fasica, esportes, mas tamb\u00e9m a bela matem\u00e1tica \u2013 a rainha e, acima de tudo, serva de todas as ci\u00eancias. Se os conte\u00fados cognitivos da escola nos conduzem ao cartesianismo, as boas li\u00e7\u00f5es de vida nos movem ao darwinismo, ou seja, bem se adaptar quando a realidade se imp\u00f5e.<br>Gardner, professor e psic\u00f3logo da Universidade de Harvard, publicou em 1987 a Teoria das nove Intelig\u00eancias M\u00faltiplas. Quando uma jornalista lhe perguntou qual seria a mais importante, de in\u00edcio titubeou, como se tivesse de escolher uma, duas ou tr\u00eas filhas entre as nove, mas foi enf\u00e1tico na resposta: &#8220;\u00e9 a combina\u00e7\u00e3o do pensamento l\u00f3gico com a capacidade de lidar com as pessoas&#8221;. O maior m\u00e9rito de Gardner foi inserir em sua teoria as intelig\u00eancias Intrapessoal (valores, virtudes) e Interpessoal (habilidades socioemocionais).<br>De Lages, meu plano era prestar vestibular em Florian\u00f3polis, mas, por circunst\u00e2ncias alheias \u00e0 minha vontade, decidi estudar em Curitiba. Um epis\u00f3dio ef\u00eamero, aparentemente sem import\u00e2ncia, mas aqui conto para demonstrar que as circunst\u00e2ncias (citando Ortega Y Gasset), por vezes, promovem mudan\u00e7as extraordin\u00e1rias em nossas vidas. Se tivesse escolhido Florian\u00f3polis, hoje seria m\u00e9dico, portanto outra profiss\u00e3o, em outra cidade, outros amigos, outra mulher, outros filhos, outros netos, e o que seria de n\u00f3s sem esses netos.<br>Permitam-me uma breve digress\u00e3o filos\u00f3fica, e aqui o fa\u00e7o, pois \u00e9 o fio condutor desta modesta orat\u00f3ria: a vida \u00e9 bela, mas tenho de aceitar que a minha vontade n\u00e3o \u00e9 soberana, pois s\u00e3o as circunst\u00e2ncias que se imp\u00f5em. A minha vida \u00e9 conduzida apenas parcialmente pelo livre-arb\u00edtrio, minhas escolhas e minha vontade. Em maior grau, sou dependente das for\u00e7as transcendentes, dos des\u00edgnios do Criador, do acaso; sou caudat\u00e1rio das pessoas que me circundam: \u00e9 a esse conjunto que podemos chamar de circunst\u00e2ncias. \u201cEu sou eu e minhas circunst\u00e2ncias\u201d \u2013 famosa frase de Ortega Y Gasset, fil\u00f3sofo espanhol.<br>Em 1968, frustrado o plano cursar Medicina em Florian\u00f3polis, rumei para Curitiba. Quando cruzamos pela primeira vez a divisa PR-SC, brinco que \u201cs\u00f3 n\u00e3o fiz meia volta porque estava dormindo dentro do \u00f4nibus\u201d. N\u00e3o vi as gigantescas placas que o ent\u00e3o governador Paulo Pimentel fincou nas estradas de acesso ao Estado do Paran\u00e1, onde se lia: \u201cAqui se trabalha\u201d. N\u00e3o imaginava o quanto teria de trabalhar e estudar.<br>Desde que aqui cheguei, Curitiba me fascinou e me proporcionou grandes alegrias e oportunidades. E, se no meu peito bate um cora\u00e7\u00e3o que ama, este cora\u00e7\u00e3o jamais haver\u00e1 de negar amor a essa terra. Se Agron\u00f4mica me serviu de ber\u00e7o, com certeza Curitiba servir\u00e1 de t\u00famulo. Ademais, Curitiba serviu de ber\u00e7o para meus tr\u00eas filhos e quatro netos, tamb\u00e9m apaixonados por essa cidade.<br>Era uma \u00e9poca em que jovens forasteiros, com pouca bagagem e muita esperan\u00e7a, desembarcavam na velha rodovi\u00e1ria do Guadalupe em busca das boas faculdades, oportunidades de emprego e custo de vida mais acess\u00edvel que em outras capitais.<br>Tivemos o privil\u00e9gio de pertencer a uma gera\u00e7\u00e3o de jovens com intensa participa\u00e7\u00e3o pol\u00edtico-social. Campeava o Regime Militar e, ap\u00f3s 1968, eclodiram os movimentos estudantis tamb\u00e9m nas ruas de Curitiba, em que grandes marchas e passeatas partiam da Reitoria, da UPES e da CEU.<br>E aqui presto uma homenagem p\u00f3stuma a dois grandes baluartes da literatura paranaense: sim, tamb\u00e9m conhecemos a Curitiba provinciana que Dalton Trevisan t\u00e3o bem descreveu em prosa e verso como a cidade das belas \u201cpolacas\u201d, mas que prudentemente nos ignoravam. Ou nos reportemos a Paulo Leminski (com o qual convivemos, pois ele era professor de latim no Curso Cam\u00f5es e quase todo m\u00eas n\u00f3s, professores dos cursinhos de Curitiba, jant\u00e1vamos no velho Bar Pal\u00e1cio). Leminski, irreverente e entre tragadas de cigarro e talagadas de vodca, subia numa cadeira, na qual em alto e bom som declamava algumas de suas p\u00e9rolas. Lembro-me de uma delas: \u201cRio de Janeiro \u00e9 o mar, Curitiba \u00e9 o bar e onde beber \u00e9 leg\u00edtima defesa\u201d.<br>No entanto, a homenagem de hoje n\u00e3o faz sentido se n\u00e3o rendermos um tributo \u00e0 ternura, ao afeto e, principalmente, \u00e0 gratid\u00e3o. Primeiramente \u00e0 fam\u00edlia, pois na fam\u00edlia, quando se convive com zelo e paix\u00e3o, se de um lado alternam-se muitas alegrias, de outro originam-se conflitos e crescimento pessoal. A sabedoria milenar chinesa ensina que nenhuma fam\u00edlia pode ostentar em frente \u00e0 sua casa uma tabuleta: \u201cAqui n\u00e3o temos problemas\u201d. Sim, \u00e9 na fam\u00edlia que o ser hol\u00edstico de cada um \u2013 corpo, mente e esp\u00edrito \u2013 se desnuda e revela suas virtudes e fraquezas. Aos filhos, devemos dar-lhes asas e ra\u00edzes, e n\u00f3s, pais, educamos pouco por meio de cromossomos e muito de como somos.<br>Somos um pouco de cada amigo, de cada colega de trabalho, a quem venero com muita gratid\u00e3o. Por muitos deles cultivo uma inveja santa.<br>Bem sabemos que a vida contempor\u00e2nea tem imposto reveses ao afeto e \u00e0s amizades reais, verdadeiras. Um dos bons analistas dessa realidade foi o soci\u00f3logo polon\u00eas Zygmunt Bauman, falecido h\u00e1 apenas oito anos, que chamou os atuais la\u00e7os afetivos de l\u00edquidos, fr\u00e1geis e individualistas. Ele refletiu em sua obra sobre as rela\u00e7\u00f5es humanas ef\u00eameras do mundo das redes sociais, onde tudo \u00e9 fugaz: se sentia perplexo com as pessoas com 500 ou 1000 \u201camigos\u201d, pois ele, que passou dos 90 anos, contaria nos dedos aqueles a quem chamaria de amigos.<br>Para Bauman, \u00e9 um grande paradoxo, pois \u00e9 um solit\u00e1rio em meio a uma multid\u00e3o de solit\u00e1rios, onde \u201ctudo \u00e9 mais f\u00e1cil na vida virtual, mas perdemos a arte das rela\u00e7\u00f5es sociais e da amizade. Esquecemos o amor, a amizade, os sentimentos, o trabalho bem-feito. O que se consome e o que se compra s\u00e3o apenas sedativos morais que tranquilizam os pr\u00f3prios escr\u00fapulos \u00e9ticos.\u201d<br>Finalizando, sempre h\u00e1 vida e vida boa quando h\u00e1 prop\u00f3sito, espiritualidade e positividade, desde que nos mantenhamos \u00fateis, solid\u00e1rios, com a mente ativa e, acima de tudo, saud\u00e1veis, como bem se manifesta Schopenhauer: &#8220;se tens sa\u00fade n\u00e3o diga que a vida n\u00e3o te deu uma oportunidade.&#8221;<br>E, sobremaneira, n\u00e3o perder o est\u00edmulo de ser um eterno aprendiz, de ser interessante e interessado. Quando se chega \u00e0 fase do 60+, \u00e9 preciso ter a sabedoria de assumir a pr\u00f3pria desimport\u00e2ncia, sem perder a autoestima.<\/p>\n\n\n\n<p><em>(*) Este texto reflete a ess\u00eancia de meu discurso de posse no Centro de Letras do Paran\u00e1, em 10\/12\/24, na minha admiss\u00e3o e de mais 11 novos membros desta entidade liter\u00e1ria e cultural fundada em 1912, talvez a mais longeva do Estado. Naturalmente, h\u00e1 acr\u00e9scimos e supress\u00f5es entre a apresenta\u00e7\u00e3o oral e este texto.<\/em><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<div class=\"mh-excerpt\"><p>(Discurso de posse no Centro de Letras do Paran\u00e1) Jacir J. 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