{"id":3106,"date":"2025-06-02T08:55:13","date_gmt":"2025-06-02T11:55:13","guid":{"rendered":"https:\/\/interessatb.com.br\/?p=3106"},"modified":"2025-06-02T08:55:27","modified_gmt":"2025-06-02T11:55:27","slug":"a-era-do-conhecimento-de-hoje-apoia-se-sobre-os-ombros-de-gigantes-do-passado","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/interessatb.com.br\/?p=3106","title":{"rendered":"A Era do Conhecimento de hoje apoia-se sobre os ombros de gigantes do passado"},"content":{"rendered":"<div class=\"wp-block-image is-style-rounded\">\n<figure class=\"alignleft size-full is-resized\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" width=\"254\" height=\"278\" src=\"http:\/\/interessatb.com.br\/wp-content\/uploads\/2022\/03\/Jacir-J-Venturi-Mercury.jpg\" alt=\"\" class=\"wp-image-971\" style=\"object-fit:cover;width:150px;height:150px\"\/><\/figure>\n<\/div>\n\n\n<p>Jacir Venturi*<\/p>\n\n\n\n<p>Cada gera\u00e7\u00e3o ergueu novas estruturas sobre funda\u00e7\u00f5es s\u00f3lidas, legadas pelos nossos antepassados. A era do conhecimento, que atualmente experimentamos, finca suas ra\u00edzes em marcos hist\u00f3ricos not\u00e1veis, entre os quais destacam-se dois colossos do saber: a lend\u00e1ria Biblioteca de Alexandria e a revolucion\u00e1ria imprensa de Gutenberg.<\/p>\n\n\n\n<p>A Biblioteca de Alexandria, precursora do conceito moderno de universidade, resplandeceu como um imponente farol de conhecimento entre o s\u00e9culo III a.C. e o s\u00e9culo IV d.C. Guardava em seus 700 mil rolos de papiro e pergaminho o cerne do saber da Antiguidade, com a audaciosa miss\u00e3o de reunir um exemplar de todos os manuscritos existentes na face da Terra. Por\u00e9m, seu acervo era privil\u00e9gio de um seleto e consp\u00edcuo grupo de s\u00e1bios, poetas e matem\u00e1ticos. Sua destrui\u00e7\u00e3o, carregada de simbolismo, \u00e9 considerada por muitos como a maior trag\u00e9dia da hist\u00f3ria da ci\u00eancia e da cultura.<br>At\u00e9 a metade do s\u00e9culo XV, a transmiss\u00e3o escrita do saber no ocidente era em boa parte limitada aos monges copistas dispersos por algumas dezenas de mosteiros e universidades.<\/p>\n\n\n\n<p>Foi nesse contexto que Johann Gutenberg, um engenhoso ourives alem\u00e3o, mudou o curso da hist\u00f3ria ao criar a tipografia por volta de 1440, em Mainz, Alemanha (onde se pode visitar o Museu de Gutenberg com r\u00e9plicas de alguns artefatos hist\u00f3ricos &#8211; vale a pena a visita!). A prensa de tipos m\u00f3veis provocou uma transforma\u00e7\u00e3o monumental, moldando a Era da Renascen\u00e7a e empoderando o Iluminismo, a Reforma Protestante e a Revolu\u00e7\u00e3o Cient\u00edfica, aclamada por muitos como a maior revolu\u00e7\u00e3o tecnol\u00f3gica do mil\u00eanio. Foi ela que democratizou o conhecimento, viabilizando a produ\u00e7\u00e3o em escala de livros e jornais.<\/p>\n\n\n\n<p>Na Europa renascentista, com uma popula\u00e7\u00e3o estimada em 50 milh\u00f5es de habitantes, apenas 15% eram alfabetizados, devido \u00e0 escassez de livros. Contudo, a inven\u00e7\u00e3o de Gutenberg alterou profundamente esse panorama, dobrando o n\u00famero de leitores europeus em poucos anos. Por volta de 1500, j\u00e1 circulavam meio milh\u00e3o de livros pelo continente.<\/p>\n\n\n\n<p>Ironicamente, a pesquisa realizada pela Retratos da Leitura no Brasil de 2024, amplamente reconhecida por sua credibilidade, afere que na popula\u00e7\u00e3o adulta, pela primeira vez, o n\u00famero de leitores se inferioriza ao n\u00famero de n\u00e3o leitores (47% contra 53%, respectivamente). \u00c9 considerado n\u00e3o leitor aquele adulto que n\u00e3o leu em 2024 sequer um \u00fanico livro, nem mesmo aquele com poucas dezenas de p\u00e1ginas. Nos \u00faltimos 14 anos, 11 milh\u00f5es de pessoas se afastaram por completo dos livros impressos ou digitais, e boa parte delas alega ter perdido o interesse e prefere se dedicar \u00e0s telas.<\/p>\n\n\n\n<p>E isso ocorre, paradoxalmente, na era digital, sendo que jamais o acesso ao saber e \u00e0 pesquisa foi t\u00e3o democr\u00e1tico, uma vez que, em quest\u00e3o de segundos, mediante um simples teclado ou comando de voz, \u00e9 poss\u00edvel acessar conte\u00fados de praticamente qualquer \u00e1rea do conhecimento, inclusive com contextualiza\u00e7\u00e3o, aplica\u00e7\u00e3o e exemplos por meio das ferramentas de intelig\u00eancia artificial.<\/p>\n\n\n\n<p>Hoje, a internet e as m\u00eddias multimodais disponibilizam conte\u00fados t\u00e9cnicos e pedag\u00f3gicos com muita did\u00e1tica, est\u00e9tica e dinamismo, incluindo anima\u00e7\u00f5es 3D, mas \u00e9 imperativo tamb\u00e9m reconhecer que grande parte dos dados presentes na web \u00e9 f\u00fatil ou perniciosa. Quando estudante nos anos 1960, recordo-me de uma comunica\u00e7\u00e3o escrita s\u00f3bria, para n\u00e3o dizer sisuda; os livros, ent\u00e3o dispendiosos, eram monocrom\u00e1ticos e com ilustra\u00e7\u00f5es contidas, al\u00e9m de textos densos.<\/p>\n\n\n\n<p>Um estudo da Universidade de Harvard refor\u00e7a o que \u00e9 praticamente um consenso na neuroci\u00eancia: o uso excessivo de dispositivos digitais compromete \u00e1reas cerebrais como o c\u00f3rtex pr\u00e9-frontal, respons\u00e1vel pela aten\u00e7\u00e3o e pela tomada de decis\u00f5es. O impacto das redes sociais e de um conte\u00fado digital superficial na sa\u00fade mental e na capacidade cognitiva das pessoas fez com que a express\u00e3o brain rot (c\u00e9rebro deteriorado) fosse escolhida como a palavra do ano de 2024 pelo Dicion\u00e1rio Oxford. Ela descreve a deteriora\u00e7\u00e3o do estado mental devido ao consumo excessivo de material online trivial, privando o usu\u00e1rio dos benef\u00edcios de enfrentar tarefas mais complexas e envolventes, capazes de turbinar os neur\u00f4nios e cuidar da sa\u00fade mental, minimizando-se os riscos de doen\u00e7as degenerativas.<\/p>\n\n\n\n<p>Em sua autobiografia (C\u00f3digo-fonte: como tudo come\u00e7ou), lan\u00e7ada em 2025, Bill Gates comenta que desde jovem costumava se refugiar em seu quarto, imerso em livros e reflex\u00f5es \u2014 pr\u00e1ticas que moldaram a sua capacidade anal\u00edtica e vis\u00e3o estrat\u00e9gica. Ele hoje expressa preocupa\u00e7\u00e3o sobre as novas gera\u00e7\u00f5es por passarem muitas horas di\u00e1rias em atividades digitais.<\/p>\n\n\n\n<p>Estudar, de forma profunda e eficaz, ainda exige um espa\u00e7o silente, uma mesa e uma cadeira. Como dizia, com gra\u00e7a e sotaque alem\u00e3o, um vener\u00e1vel professor de Matem\u00e1tica: \u201cO aprendizado entra \u2018pelo bunda\u2019 e sobe ao c\u00e9rebro.\u201d<br>Apesar da abund\u00e2ncia de recursos tecnol\u00f3gicos e da ludicidade did\u00e1tica, uma verdade permanece imut\u00e1vel: o aprendizado consistente e duradouro requer autodisciplina, esfor\u00e7o e introspec\u00e7\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p>Para alcan\u00e7ar os p\u00edncaros do saber, recorro \u00e0 analogia do Cabo do Bojador, que tal qual o Cabo da Boa Esperan\u00e7a foram s\u00edmbolos de supera\u00e7\u00e3o na tradi\u00e7\u00e3o portuguesa, como bem eternizou Fernando Pessoa: \u201cQuem quer passar al\u00e9m do Bojador tem que passar al\u00e9m da dor.\u201d E h\u00e1 \u00eaxtase. H\u00e1 conquista. A dor transfigura-se em um doce sabor \u2014 o sabor do saber.<\/p>\n\n\n\n<p><em>(*) Jacir J. Venturi, diretor de escolas e professor. Autor dos livros Da Sabedoria Cl\u00e1ssica \u00e0 Popular (em dois volumes); C\u00f4nicas e Qu\u00e1dricas; \u00c1lgebra Vetorial e Geometria Anal\u00edtica (dispostos gratuitamente em www.geometriaanalitica.com.br).<\/em><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<div class=\"mh-excerpt\"><p>Jacir Venturi* Cada gera\u00e7\u00e3o ergueu novas estruturas sobre funda\u00e7\u00f5es s\u00f3lidas, legadas pelos nossos antepassados. 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